quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cap√≠tulo 23 
Passava das dez quando Aristides chegou em casa carregando uma bandeja de salgadinhos que Eu-z√©bio mandara para Geni. Ele sabia que ela reclamava quando ele se demorava no bar e desejava agrad√°-la, uma vez que gostava muito de receber o amigo e re­cordar o tempo em que tinham trabalhado juntos.

Logo que entrou estranhou as luzes acesas e o ru√≠do de conversa animada que acontecia na sala. Curioso, foi at√© l√°. 

 Vendo-o parado na porta, Geni, sentada ao lado de Jair no sof√°, levantou-se:

- O Jair voltou! 
 

Ele abriu a boca, fechou-a de novo, e, emude­cido pela surpresa, continuou parado com o pacote nas m√£os.


Geni insistiu:

- √Č ele mesmo. Jair voltou para casa e veio para
ficar.

Percebendo a perplexidade do pai, Jacira apro­ximou-se dele, livrou-o do pacote enquanto Jair, em p√©, abriu os bra√ßos dizendo:

- Não vai me dar um abraço?

Aristides estendeu os braços e Jair o abraçou emocionado. Ele nunca tivera para com o filho um gesto de carinho. Seu pai dizia sempre que um homem não chora, que demonstrar sentimentos era coisa de mulher. Ele e Geni reprimiam os sentimentos.

Jair tinha um temperamento carinhoso. Quando pequeno tentara manifestar seu afeto, mas foi repreen­dido e dali para a frente teve receio de expressar seus sentimentos.

Ele se preparara para visitar a família, pensando encontrar a mesma situação a que estava habituado. Mas com surpresa percebeu que eles tinham mudado. O prazer dessa descoberta foi tanto, que ele se sentia feliz por ter regressado. Por esse motivo, abrira os braços para o pai, manifestando sua alegria.

Depois do abraço, Aristides, sem jeito, por ter se emocionado diante de todos, estava embaraçado.

Jair notou e procurou agir com naturalidade, se­gurou o bra√ßo dele:

- Venha, pai, quero que conheça meu amigo e sócio, Duarte.

Aristides estendeu a m√£o:

- Aristides Silva. Muito prazer.

- Gilson Duarte, o prazer é meu. Jacira convidou:

- Vamos nos sentar e continuar nossa conversa. Venha, pai, sente-se aqui ao lado do Jair.

Vendo-os acomodados ela continuou:

-        Sabe pai, ele tem muitas coisas interessantes para nos contar. Trabalhou em um navio de turismo durante cinco anos e conheceu muitos pa√≠ses.

Aristides olhou-o admirado. Ele sempre sonhara viajar, conhecer o mundo, mas não imaginava que isso fosse possível. Não se conteve:

- Como foi que conseguiu isso tudo?

- Trabalhando. Estava no Rio de Janeiro procurando emprego. O dinheiro acabou e fui trabalhar no porto.

- Fazendo o quê? - indagou ele.

- Carregando sacos. Mas eu sabia que seria por pouco tempo. Ent√£o soube que o capit√£o de um navio de turismo estava contratando pessoas, fui atr√°s. Aceitei tudo que ele prop√īs. O sal√°rio era pequeno, mas tinha acomoda√ß√£o e comida, al√©m de muitas possibilidades de melhorar.

Duarte interveio: 

-   Eu fiz uma viagem nesse navio e quando o co­nheci, ele j√° era o preferido do capit√£o e dirigia toda parte administrativa do navio. Era t√£o eficiente que o convidei para trabalhar na minha empresa. 

Isso faz algum tempo. Agora somos sócios.


-   S√≥cios! - exclamou Aristides admirado.

-   S√≥cios - confirmou Duarte. - Formei-me em agronomia e trabalhamos com fertilizantes.

Aristides estava fascinado.

-   Sempre gostei dessa √°rea. Se tivesse tido con­di√ß√Ķes de estudar, teria me formado nessa profiss√£o.

-   Gosto muito do que fa√ßo. √Č gratificante ajudar a natureza a multiplicar seus frutos, preservando a qualidade.

Os demais olhavam surpreendidos para os dois que se entrosaram na conversa, continuando o assunto com interesse. Aristides fazia perguntas e Duarte res­pondia com prazer.

Jair aproximou-se de Jacira dizendo baixinho:

- Isso eu nunca poderia esperar. Desde quando ele se interessa por agronomia?

- N√£o sei. Mas desde que nos mudamos para c√° ele tem se dedicado a plantar. Transformou nosso quintal. Fez uma horta, plantou flores e passa traba­lhando l√° todo tempo livre.

Maria L√ļcia aproximou-se de Jacira:

- Vou a cozinha passar mais um café e buscar mais algumas fatias de bolo.

- Faça isso.

Ela se foi e Jair comentou:

- Onde você encontrou essa preciosidade? Jacira sorriu:

- Ela apareceu em nossa vida em boa hora. Mam√£e melhorou muito depois que ela chegou. Eu a adoro.

- Além de tudo é linda! Parece um anjo. Jacira meneou a cabeça negativamente:

-   Cuidado, Jair. Maria L√ļcia √© para mim como uma filha.

-   N√£o falei por mal.

Jacira olhou nos olhos dele e perguntou:

-   Como vai sua vida amorosa? Voc√™ se casou, vive com algu√©m?
-   N√£o. Apaixonei-me algumas vezes, mas nada que me fizesse pensar em casamento. Sempre que pensava nessa possibilidade, lembrava-me da nossa fam√≠lia e desistia. N√£o queria aquela vida para mim.

Jacira n√£o conteve o riso. Ele perguntou:

-   E voc√™, casou-se?

-   Antes ningu√©m me queria, depois que eu co­mecei a me cuidar, apareceram alguns pretendentes. Tive um namorado, mas quando descobri que ele de­sejava que eu deixasse de trabalhar e queria mandar em mim, desisti. At√© hoje, nunca amei ningu√©m.
Jair olhou-a de alto a baixo, depois disse malicioso: 

- Não sei o que você fez, mas se transformou em uma mulher linda, elegante, charmosa. Qualquer hora vai aparecer alguém e você vai se apaixonar.


Ela riu satisfeita.

- Ser√°? N√£o conto mais com isso.

Jacira foi at√© a cozinha e Jair foi junto. Apro­ximou-se de Maria L√ļcia dizendo:

-   H√° quanto tempo voc√™ mora aqui?

-   Vai fazer tr√™s anos no m√™s que vem.

-   J√°? O tempo passou depressa - comentou Ja­cira. - Vamos colocar o bolo naquele prato novo.

-   Sei qual √©.

Enquanto Maria L√ļcia foi buscar o prato, Jair tornou:

- Olhando para ela, lembrei-me do Neto. Nunca pensei sobre o que acontece depois da morte. Ser√° mesmo que continuamos a viver em outro lugar? Pa­rece imposs√≠vel!

- Por qu√™? Tudo neste mundo √© natural. A rea­lidade que conseguimos perceber √© quase nada. O mundo invis√≠vel √© maior do que supomos.

-  Pode ser. Mas para acreditar que a vida con­tinua, precisamos de provas.

Maria L√ļcia dispunha as fatias do bolo no prato, olhou para Jair dizendo com voz firme:

-  As provas est√£o a nossa volta. Mas √© preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.

-  O que quer dizer?

-  A vida s√≥ revela seus segredos para quem busca com sinceridade e est√° pronto para saber a verdade.

-  Acredita mesmo que meu irm√£o morreu e se comunicou por voc√™?

-  N√£o sei se foi seu irm√£o. Mas tenho certeza de que era algu√©m que morreu e est√° arrependido das coisas que fez. Sente-se impotente para se redimir de seus erros. Ent√£o conclu√≠ que √© melhor refazer nosso caminho enquanto estamos vivendo aqui.
Jair admirou-se:

- Diz isso com essa calma? Se fosse comigo es­taria com muito medo.

Maria L√ļcia sorriu levemente e respondeu:

- O fato de terem morrido n√£o os torna melhores nem piores do que quando viviam aqui. Continuam as mesmas pessoas.

Ela coou o café, colocou as xícaras na bandeja e voltou à sala. Antes que Jacira a acompanhasse, Jair perguntou:

-  Ela parece uma menina. Quantos anos tem?

-  Dezenove. √Č um esp√≠rito muito l√ļcido. Eu n√£o saberia precisar quantos anos ela de fato tem.

- Estou arrepiado. Você fala de um jeito! Jacira riu e comentou:
-   Depois vamos conversar sobre reencarna√ß√£o. 

- Você parece o Duarte! Ele vive falando de vidas passadas. Para mim não parece viável.

Voltaram para a sala e Geni estava sozinha no sof√°.

- Onde eles est√£o? - indagou Jair.

- No quintal. Tide foi mostrar a ele suas plantas. N√£o pararam de conversar.

Jair trocou um olhar com Jacira como a perguntar como seu pai teria mudado tanto. Ela fê-lo sentar-se a seu lado no sofá:

-  Tem uma coisa que preciso lhe dizer. As pessoas quando querem mudar as coisas para melhor, tentam controlar os acontecimentos a sua volta, fazendo as mesmas coisas, pensando da mesma forma e conse­guem o mesmo resultado. √Č preciso agir de forma di­ferente. O que funciona √© a mudan√ßa interior.

-  De que forma?

-  Nossa cabe√ßa est√° cheia de falsas cren√ßas, n√≥s escolhemos por meio delas. A verdade no seu esp√≠rito √© muito maior do que voc√™ imagina. O segredo est√° em valorizar suas qualidades e melhorar seus pontos fracos. S√≥ quando voc√™ muda por dentro, consegue mudar as coisas de fora.

- Você está dizendo que mudou por dentro e nossos pais melhoraram? Simples assim?

-  Foi o que aconteceu. Tornei-me mais otimista, acreditei mais em mim e na vida, joguei fora a de­press√£o, a revolta, o vitimismo. Fiquei melhor. Eles, tanto quanto eu, estavam vivendo no c√≠rculo vicioso das cren√ßas erradas, aprendidas de pessoas que tamb√©m as aprenderam com os outros. Aos poucos, fui plantando minhas novas ideias, eles entenderam e deu certo. Foi o que aconteceu.

-  Voc√™ foi melhor do que eu ou o Neto. N√≥s fomos embora, mas n√£o foi por falta de amor aos nossos pais.

-  Voc√™s n√£o tinham experi√™ncia. Fizeram o que acharam melhor. Eu muitas vezes tamb√©m tive von­tade de abandonar tudo e ir embora. Foi o carinho de um esp√≠rito amigo quem me ajudou a acordar e ter for√ßas para reagir. Sem a ajuda do invis√≠vel, eu n√£o teria conseguido.

- Como foi isso?

Jacira contou-lhe suas experi√™ncias com o esp√≠­rito de Marina, sua amizade com Ernesto, e finalizou:

- Quero que o conheça. Ernesto é maravilhoso. Tem sido meu conselheiro desde o início.

-  N√≥s mor√°vamos em Nova York e l√° h√° v√°rios professores de autoajuda. Duarte √© amigo de um deles e muitas vezes convidou-me a assistir suas aulas. Fui algumas vezes. Eles ensinam o √≥bvio. Nada mais do que isso.

Jacira pensou um pouco e respondeu:

- Apesar disso a gente não vê. Foi depois que assisti às aulas de Ernesto que comecei a enxergar o óbvio.

Eles riram e Jair considerou:

- Por que será que temos tanta dificuldade para mudar nossas crenças?


- Penso que seja o h√°bito. Quando aceitamos uma cren√ßa, mesmo que seja errada, fazemos tudo para refor√ß√°-la. Condicionamos mudan√ßa com insegu­ran√ßa. Contudo, algu√©m j√° disse que a seguran√ßa est√° na mudan√ßa.


Jair olhou-a admirado:

-  Nunca imaginei que voc√™ fosse t√£o inteligente. Devo dar a m√£o √† palmat√≥ria.

-  Todos somos inteligentes. Nosso esp√≠rito √© inte­ligente. Mas minha maneira de olhar a vida bloqueava e impedia a manifesta√ß√£o do meu esp√≠rito.

Aristides e Duarte voltaram à sala conversando animadamente.
-   Est√° na hora de irmos - lembrou Jair. Duarte olhou a hora e admirou-se:

-   N√£o sabia que era t√£o tarde. Geni aproximou-se de Jair:

-   Pensei que voc√™s fossem ficar aqui.

- N√£o, m√£e. Estamos no hotel. Vamos chamar um t√°xi e ir embora.
- Não quero que você vá... Jair sorriu:

- N√£o se preocupe. Viemos para ficar. Teremos muito trabalho pela frente. Vamos organizar nossa empresa aqui.

Depois de mais um caf√© com bolo, eles se despe­diram. Uma vez no t√°xi, Duarte tornou:

-   Essa n√£o √© a fam√≠lia que voc√™ disse que tinha. Seu pai √© um homem inteligente, bem-humorado, sua m√£e am√°vel, alegre, e sua irm√£ ent√£o, √© uma mulher linda, l√ļcida que sabe o que quer da vida.

Você era cego mesmo!

-   Eu n√£o soube enxergar o que havia por tr√°s daquela imagem aparente que eu conhecia. Jacira foi mais arguta do que eu.

-   √Č assim mesmo. N√≥s criamos imagens das pes­soas, acreditamos no que parecem, sem v√™-las como realmente s√£o. Tem raz√£o com rela√ß√£o a sua irm√£.

-   Antes assim. Sinto-me feliz por ter voltado. H√° momentos que Jacira fala igual a voc√™. Acredita em vidas passadas, em esp√≠ritos, √© amiga de um professor de autoajuda, teve aulas com ele. Al√©m de voc√™, agora tem ela para colocar essas ideias em minha cabe√ßa!

-   Vamos ver se depois disso voc√™ vai enxergar o que estamos querendo lhe mostrar.

-   Amanh√£ vamos encontrar com nossos contatos e ver se fechamos o neg√≥cio.

-   Est√° tudo acertado. Falta s√≥ assinarmos o con­trato. As condi√ß√Ķes s√£o boas para ambas as partes, como deve ser. N√£o creio que eles voltem atr√°s.

-   Eu s√≥ acredito depois que tudo estiver regu­larizado.

Duarte riu bem-humorado e respondeu:

-   D√° um friozinho na barriga, sei como √© isso. √Č a primeira vez que voc√™ assume essa responsabilidade. 

-   √Č, d√°, mas ao mesmo tempo √© uma sensa√ß√£o de vit√≥ria, de conquista...

-   Sei como √©. Amanh√£ at√© o fim da tarde teremos tudo conclu√≠do. Depois, vamos procurar lugar para morar. Estou cansado de viver em um hotel.

-   Vamos alugar um apartamento e dividir as despesas.

-   Ser√° melhor. Mas agora bateu o cansa√ßo. Quero me esticar na cama e dormir. Eu n√£o consigo dormir no avi√£o. J√° voc√™, dorme mesmo.

-Mas √© um sono leve que n√£o descansa. Tamb√©m estou mo√≠do. 

Além disso, abusei daquele bolo da mamãe. Tinha me esquecido de como é bom.

O t√°xi parou em frente ao hotel, eles desceram, entraram, apanharam a chave e foram imediatamente para o quarto, onde se prepararam para dormir.

Jair deitou-se, mas apesar de cansado, n√£o dormiu logo. As emo√ß√Ķes inesperadas daquele dia o deixaram sensibilizado. Durante aqueles anos, muitas vezes pensara em voltar para casa. S√≥ n√£o o fizera por recordar-se de como era dif√≠cil a vida em fam√≠lia.

Apesar disso, nos primeiros tempos sentira sau­dades, escrevera algumas cartas. Magoou-se por n√£o ter recebido resposta. Procurou sepultar as lembran√ßas e seguir adiante, reprimindo os sentimentos, tentando aceitar a falta de amor dos seus.

Encontrou em Duarte um verdadeiro amigo. Desde que o conheceu, aprendeu a admir√°-lo por seus sentimentos nobres, pela sua maneira de en­xergar a vida, sua eleva√ß√£o de esp√≠rito. Ele ensinou-o a olhar as coisas de uma forma melhor, desenvolveu a sua autoconfian√ßa. Redescobrir o amor de sua fa­m√≠lia foi para ele uma grata surpresa. Sentia-se feliz e de bem com a vida.

Duarte deitou-se, dormiu logo. Sonhou que es­tava em uma sala de estar, muito bem-arrumada, de estilo cl√°ssico antigo, olhou em volta e viu uma linda mulher sentada em uma poltrona.

Ele estremeceu e correu para ela exclamando:

- Mar√≠lia! √Č voc√™! Finalmente voc√™ veio!

Ela levantou-se, abraçou-o com carinho e ele sentiu o perfume gostoso que vinha dela.

- Faz tempo que você não me visitava! Pensei que tivesse me esquecido.

Ela sorriu com suavidade e respondeu:

- Você sabe que está em meu coração. Vim para dizer-lhe que você encontrou seu caminho e será muito feliz. Eu vou voltar por meio de você. Estaremos juntos de novo. Vai dar tudo certo.

Gilson acordou ainda ouvindo suas √ļltimas pala­vras e sentou-se na cama emocionado. Ela ia voltar, teria ouvido bem?

Ainda estava sentindo o perfume dela e a maciez de seus braços carinhosos. Levantou-se, tomou um copo d'água e deitou-se de novo pensando em sua vida.

Filho de um rico fazendeiro de Minas Gerais, ainda muito jovem, Gilson apaixonou-se por Marília, uma linda moça da alta sociedade mineira, e foi
cor­respondido. Ficaram noivos, fizeram projetos, preten­diam casar-se assim que ele terminasse a faculdade de agronomia. Mas esse casamento nunca se realizou. Vitimada por uma pneumonia, Mar√≠lia veio a falecer.

Desesperado, Gilson n√£o conseguiu aceitar a morte de sua amada. Entregou-se ao des√Ęnimo e seus pais tentaram, sem obter √™xito, que ele retomasse a alegria de viver.

Os amigos tentavam interess√°-lo novamente na vida, mas ele a cada dia ficava mais triste. Quando as lembran√ßas se tornavam muito dolorosas, Gilson ia ao t√ļmulo de Mar√≠lia, levando as flores das quais ela tanto gostava.

V√°rias vezes, familiares e amigos davam pela sua falta e o encontravam l√°, ajoelhado no t√ļmulo, olhos perdidos no vazio, mergulhado na sua dor.

Certo dia, um de seus amigos aconselhou-o a procurar a ajuda do médium Chico Xavier na cidade de Uberaba, afirmando que a vida continua depois da morte, que Marília continuava viva no outro mundo e que a atitude dele não aceitando sua partida a estava fazendo sofrer.

Foi t√£o insistente que Gilson decidiu ir at√© o m√©­dium na casa humilde, onde ele atendia a todos com carinho. Quando chegou estava anoitecendo e a pe­quena sala estava lotada. Havia muitas pessoas con­versando entre si, algumas falando da dor da perda de um ente querido, outras relatando suas experi√™ncias naqueles encontros.

Ao fundo, uma mesa grande, v√°rios livros, papel, l√°pis, e pessoas sentadas ao redor. Cadeiras dispostas em fileiras para os visitantes. 

Gilson entrou em si­l√™ncio, sentou-se em um canto e esperou.

Em seu pensamento emocionado as lembranças de Marília reapareceram com força e ele tentava conter as lágrimas.

N√£o conversou com ningu√©m, olhou em volta, ne­nhum conhecido. Ele pensou:

"Mar√≠lia, preciso saber se voc√™ est√° viva, fale co­migo de alguma forma. N√£o estou aguentando pensar que nunca mais vou v√™-la!".

Uma porta nos fundos da sala abriu e Chico en­trou. Mulato, l√°bios grossos, sorriso largo, sentou-se ao redor da mesa. As pessoas o olhavam com espe­ran√ßa e alegria e ele indicava as pessoas que falariam sobre O Livro dos Esp√≠ritos enquanto ele psicografaria, respondendo √†s consultas das pessoas cujos nomes estavam nos pap√©is a sua frente.

O sil√™ncio se fez e depois de uma prece de um dos presentes, ele segurou o l√°pis e come√ßou a escrever vertiginosamente enquanto um rapaz ao lado o auxi­liava virando as folhas.

O tempo foi passando, as pessoas se revezando na palestra, at√© que horas depois, o m√©dium deixou o l√°pis cair. Foi feita uma prece de agradecimento. Ningu√©m se levantou. Chico, bem-disposto, conver­sava com as pessoas a sua volta. Ao mesmo tempo, um rapaz apanhou as folhas de papel na caixa onde o m√©dium as colocara e foi chamando os nomes das pessoas e entregando as mensagens. 
 

-   Senhor Duarte. Est√° presente? Como n√£o obteve resposta repetiu:


-   Senhor Gilson Duarte, encontra-se no recinto? Arrancado dos seus pensamentos, tremendo de
emoção, Gilson levantou e aproximou-se dele:

- Sou eu.

O rapaz estendeu-lhe algumas folhas de papel dizendo:

- Esta mensagem é para o senhor. Com as mãos trêmulas ele segurou as folhas com
emoção. Uma senhora comentou:

- O senhor foi mais feliz do que eu. √Č a terceira vez que eu venho e ainda n√£o recebi nada.

Gilson voltou ao seu canto, abriu os papéis e leu:

"Meu querido Gilson. Estou feliz por poder dizer-lhe que a morte n√£o √© o fim. Eu continuo viva! Tive de partir t√£o jovem, no momento em que sonhava poder viver para sempre ao seu lado. Foi dif√≠cil de aceitar. Mas hoje sei que a vida faz tudo certo. Um dia enten­der√° isso. N√£o se revolte. N√£o chore mais. Sofro vendo sua tristeza. Preciso seguir meu destino e desejo que voc√™ siga o seu. 

Vamos viver com alegria. Aproveite a oportunidade que a vida está lhe oferecendo para se tornar uma pessoa melhor. Um dia estaremos juntos de novo. Jesus o abençoe, da sempre sua - Marília".

Emocionado, Gilson releu a mensagem v√°rias vezes. Notou que o m√©dium se despedia dos amigos. Com olhos molhados, foi at√© ele e aproximou-se com a mensagem nas m√£os. Chico, que ia se afastar, vendo-o parou. Rapidamente Gilson segurou a m√£o do m√©dium e beijou-a agradecido. Chico apertou a m√£o dele e beijou-a tamb√©m. 

Depois o abraçou com carinho dizendo:

- Marília! Que linda ela é!

Mesmo depois de tanto tempo decorrido, Gilson sempre que se recordava daquela noite, emocio­nava-se. Foi assim que ele teve certeza de que a vida continua.

Depois dessa noite, interessou-se em conhecer o espiritismo e sempre que podia ia a Uberaba assistir √†s reuni√Ķes de Chico Xavier.

Leu seus livros, fez cam­panhas para os pobres que ele assistia com seu grupo e levou seus pais para conhecer o trabalho dele.

Quando estava l√°, ficava por perto ouvindo os casos que o m√©dium contava, os ensinamentos que distribu√≠a nas suas conversas bem-humoradas e vol­tava para casa mais animado.

Pensava no Chico sempre com gratid√£o e dese­java que onde ele estivesse fosse muito feliz. 

Aos poucos retomou sua vida, terminou os es­tudos, mas n√£o quis trabalhar na fazenda com o pai, conforme o desejo dele. Sentia necessidade de viajar, aprender, construir uma vida melhor conforme Mar√≠lia lhe havia pedido.


Foi para os Estados Unidos contratado por uma empresa de tratores onde ficou durante alguns anos. Formou um capital e montou sua própria empresa de insumos e fertilizantes para a lavoura.

Prosperou, a empresa cresceu. Conheceu Jair, gostou dele, reconheceu que tinha potencial, con­tratou-o. Tomaram-se amigos.

Ensinou-lhe tudo que sabia uma vez que ele mostrou interesse, empe­nhava-se em aprender. Al√©m de amigo, tornou-se seu homem de confian√ßa.

Um dia Gilson sentiu que estava cansado de viver fora do Brasil.

Sentiu saudades da comida, da m√ļsica, das coisas que s√≥ encontrava no seu pa√≠s, ent√£o de­cidiu voltar.

Sua irmã Janice tinha se casado, era mãe de dois filhos e ele só os conhecia em breves momentos quando passava alguns dias visitando a família.

Decidiu montar a f√°brica no Brasil e prop√īs so­ciedade a Jair. Ele n√£o tinha capital, mas Gilson em­prestou-lhe o necess√°rio para que ele pagasse con­forme o neg√≥cio fosse crescendo. Jair aceitou. 

Fizeram o projeto e tomaram as providências para realizá-lo.

Desde que recebera a carta de Mar√≠lia, Gilson pedia a Deus que lhe permitisse encontrar-se com ela durante o sono. Sabia dessa possibilidade. Mas s√≥ na­quela noite ele havia conseguido. A sensa√ß√£o forte de t√™-la abra√ßado n√£o lhe sa√≠a do pensamento.

Suas palavras cheias de carinho repetiam-se em sua mente e ele procurava descobrir o que elas que­riam dizer.

Pensando nisso, lembrou-se dos compromissos do dia seguinte, deitou-se querendo dormir. Tentou relaxar, mas as palavras de Marília se repetiam e só quando o dia estava começando a clarear foi que ele finalmente conseguiu adormecer.

 

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