quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cap√≠tulo 24 

Jacira olhou o relógio e apressou-se. Dentro de alguns minutos Gilson chegaria para buscá-la. Fazia quatro meses que Jair tinha regressado e desde então a vida de Jacira tornara-se muito movimentada.


Entusiasmada com o projeto deles, procurou au­xili√°-los ao m√°ximo. Depois de tantos anos fora do pa√≠s, eles precisaram atualizar-se e Jacira tinha con­di√ß√Ķes de orient√°-los.

Dorival cuidou das provid√™ncias para legalizar a empresa e ela das outras quest√Ķes. 
 

Multiplicou-se no trabalho, uma vez que o movi­mento do ateli√™ estava crescendo, mas bem-humo­rada encontrava tempo para tudo.

Sentia-se √ļtil e feliz. Nunca tinha trabalhado tanto, mas fazia-o com prazer.


Todo o tempo de que dispunha, estava com os dois, opinando, revelando-se muito eficiente e pr√°­tica. Tanto Jair como Gilson n√£o tomavam nenhuma decis√£o sem consult√°-la e os tr√™s decidiam todas as provid√™ncias juntos.

Aristides tamb√©m estava empolgado. Jacira nunca se lembrava de t√™-lo visto com tanto entusiasmo. Pa­recia outra pessoa. Desde o in√≠cio colocara-se √† dispo­si√ß√£o deles, ajudando no que podia.

A casa de Jacira, antes silenciosa, tornara-se mo­vimentada. At√© Geni, alegre por ter o filho de volta, esmerava-se na cozinha com Maria L√ļcia, experimen­tando receitas, fazendo o que cada um gostava.

Maria L√ļcia integrara-se perfeitamente na fam√≠lia, tornara-se mais alegre. Gostava de cantar, mas s√≥ o fazia quando n√£o havia ningu√©m em casa. Aprendia n√£o s√≥ as can√ß√Ķes em voga como as mais antigas.

Geni lhe ensinara algumas m√ļsicas de sua ju­ventude e ela as aprendera com facilidade. Cantava com tal sentimento que Geni sentia-se transportada aos anos da sua mocidade. Insistia com Maria L√ļcia para que cantasse diante da fam√≠lia, mas ela se re­cusava. At√© o dia em que Jacira chegou inesperada­mente e a surpreendeu.

-   Voc√™ tem alma de artista! - disse. - Por que nunca nos disse que sabia cantar desse jeito?

-   Minha m√£e sempre cantava comigo. Foi ela que me ensinou muitas can√ß√Ķes. Mas aqui ningu√©m tem esse h√°bito e eu pensei que n√£o iriam gostar.

-   Como n√£o? Voc√™ tem uma linda voz, afinada, √© um prazer ouvi-la. Quando sentir vontade de cantar, cante. A m√ļsica faz bem √† alma. Nunca pensou em dedicar-se √† m√ļsica?

-   Sempre sonhei em aprender a tocar viol√£o. Assim poderia cantar e acompanhar.

-   √Č uma boa ideia. Voc√™ acha que daria conta de estudar e aprender viol√£o ao mesmo tempo?

- Claro que sim!

-   Nesse caso, vamos ver uma boa escola.

Os olhos dela brilhavam de alegria quando abraçou Jacira, que beijou sua face com carinho.

Apesar de gostar muito dela, Jacira tinha dificul­dade em demonstrar seu afeto, n√£o apenas com ela, mas com todos da fam√≠lia.

Naquele momento, Maria L√ļcia foi t√£o espon­t√Ęnea, deu-lhe tanto prazer, que a partir dali, Jacira tornou-se mais carinhosa com as pessoas.

Jair entrou na sala dizendo:

- Est√° pronta? Vamos. Gilson est√° esperando no carro.

Jacira apanhou a bolsa e o acompanhou. Vendo-a chegar, Gilson abriu a porta do carro para que ela entrasse: 

-   Como voc√™ est√° linda! Jair interveio:


-   N√£o fale assim que ela pode acreditar!

- Antes eu n√£o acreditava, mas agora eu sei que sou bonita!

- Viu como ela est√° ficando convencida?

- Acho bom você se controlar. Ela pode não gostar e nos deixar de lado. - comentou Gilson.

Jacira que se sentara atr√°s no carro respondeu:

- Já entendi! Você está querendo me "comprar". Saiba que eu não me vendo. Estou ajudando vocês porque me faz bem, dá-me prazer. Sou uma pessoa boa. Só.

Mesmo dirigindo o carro, sempre que possível, Gilson a olhava pelo retrovisor. Ela percebia os olhos dele fixando-a e fingia não ver.

Notava que ele a olhava com admiração, mas não sabia o tanto que isso significava. Algumas vezes, Jair brincava insinuando que Gilson estava gostando dela. Mas ele nunca lhe dissera nada que a fizesse acreditar que fosse verdade.

Jacira sentira-se atra√≠da por ele desde o primeiro dia. Com a conviv√™ncia, a admira√ß√£o, tornara-se um sentimento maior. Ela se emocionava com a proximi­dade dele, com sua maneira de ser e principalmente com a postura √©tica e firme que tinha diante da vida.

Além disso, ele compartilhava suas ideias sobre espiritualidade e ensinara-lhe muitas coisas com suas atitudes verdadeiras e naturais.

Ela estava pensativa, calada. Gilson deu uma olhada pelo espelho e comentou:

- Eu gostaria de saber o que você está pensando... Tão calada... Tão séria...

Jacira sorriu:

-  N√£o estava pensando em nada...

-  Sua resposta revela que voc√™ n√£o quer falar sobre isso.

-  Quem sabe o que se passa na cabe√ßa de uma mulher? - perguntou Jair rindo.

Tinham chegado ao local e Jacira sentiu-se ali­viada por n√£o ter de responder. Desceram e entraram na loja onde pretendiam comprar alguns m√≥veis para o pequeno escrit√≥rio da f√°brica. Ela j√° estava funcio­nando havia um m√™s e com essa compra eles termina­riam as instala√ß√Ķes.

Jair fizera algumas viagens pelo interior divul­gando a nova empresa, oferecendo seus produtos de maneira atraente, e os primeiros neg√≥cios come­√ßaram a aparecer.

Jacira, Maria L√ļcia e Gilson, continuavam indo √†s reuni√Ķes na casa de L√≠dia. De vez em quando Geni os acompanhava. Mas Jair, apesar dos convites, nunca ia.

Ele tinha medo e n√£o gostava nem de falar sobre o assunto. Gilson o advertia:

-  N√£o adianta fugir. Voc√™ tem mediunidade. √Č melhor estudar a fim de evitar alguma surpresa.


-  Voc√™ e Jacira s√≥ falam nisso! Eu n√£o tenho nada e n√£o quero me envolver com esse assunto.

Depois que come√ßara a frequentar essas reu­ni√Ķes, Maria L√ļcia sentia-se muito bem. O esp√≠rito de sua m√£e nunca mais a assediara.

O esp√≠rito de Marina costumava comparecer a essas reuni√Ķes e informara que Rosalina se encontrava em um lugar de refazimento e que, quando estivesse bem, voltaria para conversar com ela.

Dentro da loja, depois de fazerem algumas com­pras, Gilson lembrou:

- Não podemos nos atrasar. Hoje é dia da reunião na casa de Lídia.
Jacira concordou com a cabeça e disse para Jair:

-   Hoje seria um dia bom para voc√™ nos acom­panhar a essa reuni√£o.
-   Por qu√™? N√£o vejo nada de especial.

-   Esqueceu? Hoje √© anivers√°rio do Neto.

Jair sentiu um forte arrepio percorrer-lhe o corpo. Por um momento a figura do irm√£o surgiu em sua mente.

-   N√£o me lembrava disso. N√£o guardo datas com facilidade.
-   Nos √ļltimos dias tenho pensado muito nele e hoje pensei em levar algumas flores para fazer uma homenagem a ele.

-   Voc√™ fala como se ele estivesse morto mesmo. Eu n√£o tenho essa certeza.

- Bem que eu gostaria que ele estivesse vivo. Mas diante do que aconteceu, estou inclinada a acre­ditar que ele de fato morreu. Sendo assim, nesta data, pode ser at√© que ele venha nos visitar.

-   N√£o acredito nisso. Voc√™ est√° se iludindo. Que provas tem de que era o esp√≠rito dele que Maria L√ļcia recebeu?

Gilson interveio:

- Que provas você tem de que não era? Jair estremeceu e disse nervoso:

-   Voc√™s querem √© me deixar irritado. N√£o gosto desses assuntos. Neto est√° t√£o vivo quanto eu e, com certeza, a qualquer momento vai aparecer em casa.

-   Se ele voltasse para casa, mam√£e ficaria em paz. Sabe como ela √©. N√£o se esquece dele. Sempre diz que a presen√ßa dele √© a √ļnica coisa que falta para que ela se sinta completamente feliz. Mas temo que isso nunca aconte√ßa.

-   √Äs vezes sinto vontade de sair √† procura dele. Estou certo de que com uma investiga√ß√£o bem feita, conseguiria encontr√°-lo.

- O √ļnico endere√ßo que temos √© o do hotel onde ele trabalhava. L√° ningu√©m sabe informar nada a respeito dele. Dizem que ele deixou o emprego e nada mais.

-  No momento, n√£o tenho tempo para ir pro­cur√°-lo. Mas assim que tiver uma folga irei ao Rio e estou certo de que serei bem-sucedido. 

Quero mostrar a voc√™s que essa loucura de sess√Ķes esp√≠ritas √© uma grande ilus√£o.


Jacira trocou um olhar de cumplicidade com Gilson que respondeu:

- Faça isso mesmo. A hora da verdade sempre chega, não importa o tempo que demore.

Gilson lançou-lhe um olhar desafiador e provocou:

- Se você não acredita por que tem tanto medo de ir a uma simples reunião na casa de Lídia?

Jair levantou a cabeça irritado:

-  Meu medo √© uma desculpa para n√£o ir. Iria me sentir rid√≠culo sentando em uma mesa e esperando pela manifesta√ß√£o de esp√≠ritos.

-  Voc√™ quer mostrar-se corajoso, mas √© covarde. Diga a verdade. Voc√™ est√° tremendo de medo! - Ca­√ßoou Jacira rindo. E continuou: - Se quiser ir prometo segurar a sua m√£o para dar-lhe coragem. Os esp√≠ritos n√£o fazem mal a ningu√©m.

Jair encarou-os com raiva e respondeu:

- Pois eu vou mostrar-lhes que não acredito mesmo e não tenho medo de nada. Irei com vocês e não preciso de ninguém.

Naquela noite, a fam√≠lia inteira foi √† reuni√£o na casa de L√≠dia. 

Como era anivers√°rio de Neto, Jacira disse aos pais que levaria flores e rezariam pedindo a Deus que descobrissem o paradeiro dele.

At√© Aristides resolveu ir. Sempre conversava muito com Gilson, a quem admirava. Ele j√° lhe falara sobre espiritualidade, relatando alguns fen√īmenos de mediunidade e despertando seu interesse.

Quando chegaram na casa de L√≠dia, faltavam al­guns minutos para a hora da reuni√£o. L√≠dia tinha um espa√ßoso quarto nos fundos da casa que destinara √†s atividades espirituais. Tinha uma mesa redonda no meio, cadeiras em volta e outras mais atr√°s. Ela sabia que naquela noite, mais pessoas iriam.

Do lado, um aparador sobre o qual estava um lindo vaso com flores, uma bandeja com uma jarra de √°gua e alguns copos. A sala estava iluminada apenas por uma luz azul e no aparelho de som, uma m√ļsica suave harmonizava o ambiente.

L√≠dia recebeu-os com carinho, colocou as flores que Jacira trouxera em um vaso e convidou-os a ir para a sala de reuni√Ķes onde Estela j√° se encontrava.

- Hoje é aniversário do Neto. Trouxemos estas flores em homenagem a ele.

Geni segurou o bra√ßo de L√≠dia dizendo com voz s√ļplice:

-  Viemos pedir aos esp√≠ritos seus amigos que nos ajudem a ter not√≠cias do meu filho. Deus sabe onde ele est√° e pode nos ajudar.

-  Vamos pedir, d. Geni. Eles sempre ouvem os pedidos de uma m√£e. 

 Sentem-se. Est√° na hora de ini­ciarmos a reuni√£o.
 
Ela pediu que todos se sentassem ao redor da mesa. Apesar de ter lugar para todos, Jair preferiu ficar nas cadeiras de fora.

L√≠dia solicitou que relaxassem e elevassem o pen­samento pedindo a ajuda de Deus. Fez comovida prece saudando os amigos espirituais e abrindo a reuni√£o.

Pouco depois, Estela começou a falar com voz suave:

- √Č com alegria que estou aqui, trazendo o ca­rinho de muitos amigos. Quero falar da generosidade da vida, que apesar dos nossos enganos, trabalha sempre para nos conduzir a uma vida melhor. 

Con­fiemos na bondade divina que nunca nos desampara. Deus nos aben√ßoe.

Ela calou-se e o sil√™ncio se fez durante alguns se­gundos. Jair, sentado no fundo da sala, estava inquieto. Remexia-se na cadeira respirando com dificuldade. Ar­repios percorriam-lhe o corpo e uma ang√ļstia insupor­t√°vel comprimia-lhe o peito.

Ia levantar-se quando Lídia já em pé do lado dele colocou a mão sobre sua testa dizendo:

- Tenha calma. Isso não é seu. Não tenha medo. Jair arfava, esforçando-se para respirar e tentava
levantar-se, mas Lídia, segurando sua testa, disse com voz firme:

-  Se voc√™ n√£o se acalmar e continuar assim, ter√° de ser retirado √† for√ßa. Queremos ajud√°-lo, mas pre­cisa cooperar.

-  Eu n√£o aguento mais! Quero falar! Todos est√£o aqui. M√£e, estou arrependido. N√£o fiz o que prometi. Filha, eu estava louco. N√£o sabia o que estava fazendo quando as abandonei! Paguei muito caro a minha lou­cura. Por favor, perdoem-me. Estou sofrendo muito.
Emocionada, Jacira segurou a m√£o de Geni que, com olhos arregalados, tremia assustada. Jair continuou:

- Vocês não estão me conhecendo? Sou o Neto. Geni soltou um soluço, olhou aflita para Jacira que
continuava apertando sua mão e passou o braço sobre os ombros dela, procurando ampará-la.

Nesse momento, Maria L√ļcia estremeceu e disse raivosa:

-  Voc√™ agora se diz arrependido, implora perd√£o, mas eu n√£o o perdoo. Eu o amei com todo o cora√ß√£o, ofereci-lhe o meu melhor e voc√™ nos deixou para ir atr√°s da sua ambi√ß√£o. Trocou-nos por dinheiro. Se ti­vesse sido por amor, talvez eu o perdoasse, mas foi s√≥ interesse. O pai dela era rico e o comprou. E eu tive de me sujeitar a uma vida dif√≠cil, criar minha filha sem poder dar-lhe tudo quanto ela merecia. Depois de tudo que nos fez, hoje nos encontramos aqui. Vendo-o, minha m√°goa reapareceu e continua viva como no pri­meiro dia. Voc√™ tem de pagar por tudo o que nos fez.

Rosalina, eu estava errado. Por favor, perdoe-me. Hoje reconhe√ßo que voc√™ √© o amor de minha vida. Depois que a deixei, nunca mais fui feliz. Diga que me perdoa. Estou disposto a refazer o nosso caminno. 

Quero ficar
-junto com você, começar de novo. Juntos, construiremos um futuro melhor. Sei que é possível.

-   √Č muito tarde. A ferida continua doendo. N√£o posso esquecer.
-   Por favor, d√™-me uma chance, eu sofri, ama­dureci, mudei... Por favor, n√£o me levem embora. Eu quero ficar, falar com minha m√£e, pedir perd√£o, deixem-me ficar um pouco mais, deixem...

Jair calou-se, respirou fundo. L√≠dia ofereceu-lhe um copo de √°gua que ele segurou com a m√£o tr√™mula e foi tomando devagar. Ela encaminhou-se at√© Maria L√ļcia que solu√ßava, colocou a m√£o em sua testa dizendo:

- Acalme-se, Rosalina. Voc√™ est√° perturbando Maria L√ļcia.

-   Desculpe. N√£o desejo mago√°-la. Perdoe-me.

-   Voc√™ agora precisa ir embora.

-   N√£o. Quero conversar com minha filha.

- Agora não é possível. Vá com essa moça que está ao seu lado. Quando estiver melhor, poderá voltar e conversar com ela.

Maria L√ļcia suspirou, abriu os olhos tentando acalmar-se. L√≠dia deu-lhe um copo de √°gua. Ela bebeu e foi serenando.

Geni solu√ßava baixinho, Jair, p√°lido, procurava controlar a emo√ß√£o e refazer-se. Aristides, olhos ma­rejados, observava calado.
Lídia sentou-se novamente:

- Vamos agradecer a bondade divina que hoje permitiu a presen√ßa de dois esp√≠ritos sofridos, que ne­cessitam do nosso carinho. N√£o temos condi√ß√Ķes de julgar ningu√©m, portanto, vamos orar em sil√™ncio a favor de todos os envolvidos para que cada um en­contre a paz no cora√ß√£o.

O silêncio se fez e depois de alguns segundos, Estela começou a falar:

- Chegou a hora de eu conversar com voc√™s sobre o que aconteceu aqui esta noite. H√° muitos anos atr√°s, vivia em uma aldeia na It√°lia uma jovem muito bonita, de fam√≠lia rica e importante, chamada Gina que se apaixonou perdidamente por um jovem e foi corres­pondida. Casaram-se, tiveram dois filhos. Ele, muito rico, car√°ter fraco, mulherengo, apesar de gostar de Gina, envolvia-se com outras mulheres. Num desses encontros, apanhado por um marido tra√≠do, morreu assassinado, deixando dois filhos adolescentes. Gina, de temperamento dram√°tico, emocionalmente exa­cerbada, n√£o suportou a trai√ß√£o nem a viuvez. En­tregou-se √† depress√£o, perdeu o gosto pela vida. Nada mais lhe interessava. Os filhos: o mais velho am­bicioso e desejoso de poder, envolveu-se com pol√≠tica, n√£o medindo esfor√ßos para conseguir o que desejava. Valia tudo desde que se sentisse dono do mundo.

"O mais novo tinha prazer em usufruir a riqueza, gastava sem limites, imaginando que seu dinheiro nunca acabaria. Ambos se deram mal. Gina foi de­finhando at√© morrer com menos de cinquenta anos. O filho mais velho tornou-se poderoso, mas morreu odiado e perseguido pelos inimigos pol√≠ticos. J√° o mais novo acabou na mis√©ria, depois de depredar toda a fortuna terminou seus dias em um asilo, inconfor­mado e triste."


Estela calou-se durante alguns segundos. Todos a ouviam atentos e ela prosseguiu:


- √Č f√°cil de imaginar como voltaram √† vida as­tral. Durante muito tempo cada um teve de suportar os resultados de suas escolhas. Arinos, o marido de Gina, reconhecendo que seu assassino tivera motivos para tirar-lhe a vida, em vez de partir para a vingan√ßa como fizera no in√≠cio, reconheceu seus erros, pediu ajuda e foi auxiliado.

"Arrependido, procurou Gina e a encontrou ainda mergulhada na depress√£o, vivendo em uma regi√£o umbr√°tica e triste. Estava fraca e sem vontade pr√≥­pria. Ele tentou de todas as formas ajud√°-la, mas ela n√£o reagia a nada.

"Um mentor espiritual aconselhou-o a procurar os dois filhos. Foi o que ele fez. Procurou por eles. O mais velho, Vitorio, estava preso pelos seus inimigos, sendo for√ßado a obedec√™-los trabalhava como escravo. J√° Gino, o mais novo, estava inconformado com a mi­s√©ria, alimentando a ilus√£o de ainda ser muito rico.

"A custo, Arinos conseguiu auxili√°-los e conduzi-los a uma recupera√ß√£o. Aos poucos eles foram melhorando e se conscientizando dos seus erros. Arrependidos, jun­taram-se ao pai no aux√≠lio a Gina. Todos se sentiam cul­pados pela depress√£o dela.

"Dedicaram-se bastante e aos poucos ela foi rea­gindo. Eles melhoraram, mas as lembran√ßas das falhas do passado surgiam impedindo-os de seguir adiante. Ent√£o, foram aconselhados a reencarnar. Arinos e Gina iriam primeiro e os dois filhos depois. 

Tudo progra­mado. A vida encarregou-se de colocar em pr√°tica."

Estela fez silêncio durante alguns minutos. Depois, deu um longo suspiro e tornou:

- Preciso parar aqui. Mas esta hist√≥ria vai con­tinuar. Eu voltarei para contar. Podem esperar. Um abra√ßo agradecido da amiga Marina.

O silêncio se fez. Lídia murmurou ligeira prece de agradecimento e acendeu a luz. Todos emocionados desejavam falar, mas não conseguiam.

Lídia distribuiu os copos de água e eles tomaram em silêncio. Sabiam que eram os personagens daquela história. Era a vida da família que se repetia.

Geni solu√ßava baixinho e L√≠dia aproximou-se co­locando a m√£o sobre a dela, com carinho. Ela levantou a cabe√ßa dizendo triste:
- Meu filho est√° morto? Era o Neto mesmo?

- Era ele, sim. Mas a morte n√£o √© o fim e ele con­tinua vivo em outro mundo.

Geni suspirou triste e respondeu:

- Mas ele nunca mais voltar√°!

- Ao contr√°rio. Ele est√° de volta e poder√° visit√°-la outras vezes.
Geni abanou a cabeça negativamente:

- Ah! Mas não é a mesma coisa!

Lídia sentou-se ao lado dela e, segurando sua mão, explicou-lhe:
 
-  √Č diferente, mas ele continua o mesmo, s√≥ que agora est√° mais l√ļcido, percebeu o quanto estava er­rado e est√° se empenhando para tornar-se uma pessoa melhor. Isso √© motivo de alegria, n√£o de tristeza.


-  Pobre filho, est√° sofrendo muito!

-  A culpa √© muito dolorosa. Ele sofre porque tem consci√™ncia dos seus erros e ainda n√£o conseguiu ser perdoado por aqueles a quem prejudicou.

Maria L√ļcia levantou-se, aproximou-se delas di­zendo:

- Terei entendido bem? A filha a que ele se re­feria sou eu? Mas o nome de meu pai n√£o era Neto. Era Vicente.

Todos os presentes fixaram os olhos nela admi­rados. Aristides respondeu emocionado:

- O nome dele era Vicente, igual ao de meu pai. Por esse motivo todos o chamavam de Neto. Se isso é verdade, você é minha neta!

Maria L√ļcia abra√ßou-o emocionada e Geni juntou-se a eles no mesmo abra√ßo. Jair e Jacira, aproximaram-se, olhos brilhantes de emo√ß√£o, e abra√ßaram-se a eles em sil√™ncio. A emo√ß√£o era tanta que n√£o conseguiam express√°-la em palavras.

Quando se sentiram mais calmos, Lídia tornou:

- Sinto-me feliz por essa revela√ß√£o. Eu sabia que Maria L√ļcia tinha uma liga√ß√£o muito forte com voc√™s. Hoje √© um dia de festa. Vamos para a sala. Temos que comemorar. Vou abrir um vinho, fazer um brinde.

Ela saiu e todos a acompanharam. Mais refeitos da surpresa, comentavam os acontecimentos. Jacira aproximou-se de Lídia:

-  Marina falou de todos, menos de mim. N√£o men­cionou o meu nome. Ser√° que n√£o perten√ßo √† fam√≠lia? Nesse caso, por que estou aqui?

-  Essa √© uma pergunta que na hora eu tamb√©m me fiz. Mas Marina disse que a hist√≥ria vai continuar, ent√£o saberemos.

Gilson aproximou-se de Jair:

- Como se sente?

- Dif√≠cil de explicar. Estou um pouco confuso, mexido, emocionado. Sinto que alguma coisa mudou dentro de mim. Preciso de um tempo para refletir, en­tender o que aconteceu.

- Sei como é. Você estava distante da realidade e agora sabe, sente como as coisas são. A poeira vai assentar e você vai ficar bem.
Jair respirou fundo e comentou:

- Senti-me muito mal. Pensei que fosse morrer. Não conseguia segurar minha boca que falava sem parar. Eu ouvia sem poder controlá-la. O que mais me espanta é que quando parei de falar, tudo desapareceu e, como em um passe de mágica, voltei ao normal. Como pode ser isso?

- O mal-estar que você sentia, não era seu. Quando o espírito de Neto aproximou-se e o envolveu, tudo que ele sentia você sentiu.

Assim que ele foi afas­tado, voc√™ voltou ao normal.

- Ser√° que foi o esp√≠rito do Neto mesmo? Eu pre­ciso ter certeza de que ele morreu, de que n√£o es­tamos sendo v√≠timas de uma mentira.

Gilson sorriu e respondeu:


- Concordo. Precisamos saber o que aconteceu a ele. Amanh√£ mesmo vamos pesquisar, tentar descobrir. Se ele est√° morto, deve existir uma prova qualquer em algum lugar, um atestado de √≥bito, um t√ļmulo.

- Isso mesmo. Vamos investigar. √Č importante para nossa fam√≠lia.
Eles continuaram conversando com Lídia sentados na sala, fazendo perguntas sobre mediunidade e vida após a morte com muito interesse.

Naquela noite, deitada na cama ao lado do ma­rido, Geni abra√ßou-se a ele trocando ideias sobre o que teria acontecido ao filho, imaginando como ele teria morrido.



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