sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Capítulo 3 
Na manhã seguinte, quando chegou à oficina de costura, Margarida a esperava com um sorriso:


- Vamos entrar, tenho uma coisa para você. Jacira, curiosa, acompanhou-a até o toalete.


- Veja este vestido. É do tempo que eu trabalhava com moda. Foi o único que restou. Infelizmente, não serve para mim, mas estou certa de que serve como uma luva em você. O que acha?


Ela segurou o vestido que tirara da sacola e os olhos de Jacira brilharam. Era de seda azul-escuro, muito bonito, e ela adorou.


- É lindo! Nunca tive um vestido de seda! Mas deve ser caro. 

Não tenho como comprá-lo.


-   Eu não estou vendendo. É um presente. Guardei-o como recordação e esperava poder voltar a trabalhar no meu ramo.


-   Mas não posso aceitar! Você pode vendê-lo e conseguir um bom dinheiro por ele!


-   Ele não me custou nada. Ganhei o tecido e eu mesma fiz. É um presente. Experimente. Vamos ver como fica em você.


As mãos de Jacira tremiam quando segurou o vestido colocando-o na frente do seu corpo.


- Vamos, experimente. Logo vai tocar o sinal e teremos de entrar!

Margarida ajudou-a a despir-se e a colocar o vestido. Ajeitou o fecho, os ombros, depois disse triunfante:


-  Eu não disse? Ficou lindo! Meu olho ainda é bom. Sei quando uma roupa vai cair bem.


-  Gostaria de ver como ficou, mas o espelho aqui é tão pequeno!


-  Não vai precisar fazer nada. Está perfeito. Pode levá-lo. É seu.


Os olhos de Jacira encheram-se de lágrimas. Abraçou a amiga dizendo:


-  Obrigada! Nunca esquecerei o que está fazendo por mim.


-  Eu adoro ver uma pessoa elegante, bem-vestida.


-  Você é uma modista de classe. Por que continua trabalhando nesta oficina? Poderia costurar para fora.


-  Eu gostaria. Mas não tenho uma cabeça boa para fazer contas. Acho que foi por essa razão que tudo deu errado.


-  Pois eu sou boa nas contas. Se não fosse, não poderia sustentar meus pais com o que ganho aqui.

A campainha soou e Margarida ajudou-a a tirar o vestido e a colocar o outro. Depois, ambas se apres­saram a ir para o salão de trabalho.

Durante o dia inteiro Jacira trabalhou pensando no vestido que ganhara. Não via hora de ir para casa e vesti-lo novamente, olhar no espelho para ver como ficara.

O dia custou a passar e ela até se esqueceu de re­formar o vestido que vestia conforme havia planejado. Quando deu o sinal, apressou-se a sair, segurando a sacola com o vestido como se fosse um tesouro.

Margarida aproximou-se dizendo:

- Vou sair com você. O porteiro pode estranhar você levar o vestido que eu trouxe.

- Ele deve saber que você entrou com essa sacola.

-   Eu lhe mostrei, mas na saída é bom que ele saiba que eu lhe dei.
Ao passar na portaria, Jacira abriu a bolsa e a sacola, como de praxe, e ambas puderam sair. Na rua, ela agradeceu mais uma vez a amiga e dirigiu-se à fila do ônibus, como de costume.

A espera pareceu-lhe mais longa do que de cos­tume. Finalmente, conseguiu entrar no ônibus e pegar um lugar no último banco. 

Algumas pessoas preferiam ficar em pé na frente, do que se sentar atrás, porque ficava mais difícil na hora de descer.

Ela chegou em casa já havia anoitecido. Nem se importou com as recomendações da mãe que, como sempre, havia deixado a cozinha para arrumar. Foi di­reto para o quarto, vestiu o vestido, abriu a porta do guarda-roupas onde havia um espelho grande e olhou.

O vestido lhe assentara como uma luva. O modelo afinara sua cintura, o decote em V ressaltara seu busto e ela reconheceu que tinha um corpo bem feito.

Emocionada, passava as mãos pelo vestido sen­tindo a delicadeza da seda, virando-se de um lado a outro com os olhos no espelho. Seu corpo parecia de outra pessoa, contudo, não gostou dos seus cabelos. Seu penteado não combinava nada com aqueles trajes.
Desanimada, sentou-se na cama pensando:

"De que adianta ganhar este vestido tão lindo se eu não tenho classe suficiente para usá-lo? Depois, aonde irei com um vestido desses? Certamente não o usaria para trabalhar". E ela nunca saía para passear.

Tirou o vestido, pendurou-o no cabide, guardou-o no armário. Por que para ela as coisas não davam certo? Ganhara um vestido lindo, mas não tinha aonde ir, nem sapatos e bolsa que combinassem. Suspirou triste.

Geni bateu na porta dizendo:

-   Jacira, o que está fazendo fechada no quarto? Seu pai quer falar com você.


-   Já vou.

Em seguida, ela colocou um vestido, desceu, e foi até a sala onde Aristides folheava o jornal.

-  Quer falar comigo, pai?

-  Sim. Eu preciso de dinheiro. O João me disse que em Jundiaí, na fábrica de tecidos, estão preci­sando de gente. Quero tomar um trem e ir até lá.

-  Pai, é muito longe. Não dá para trabalhar todos os dias a essa distância.

-  Eu preciso de emprego. Você e sua mãe vivem dizendo que não arranjo trabalho porque me acos­tumei sem fazer nada. Eu quero trabalhar. Posso ir para lá, sim.

-  Será caro e cansativo.

-  Eu posso me mudar para lá.

-  Isso não é possível. Eu trabalho aqui. Se nos mudarmos perderei meu emprego.

-  Vocês ficam, eu posso morar lá sozinho.

-  Já pensou que teria que pagar pensão ou aluguel e no fim do mês não teria nem dinheiro para pagar as contas? É melhor desistir dessa ideia.

-  Está vendo, Geni? Eu quero trabalhar, mas vocês me atrapalham.

-  Jacira tem razão. Você não ganharia nem para as despesas. 

Depois, como sabe se eles o aceitariam? Você já passou dos cinquenta.

-  Vocês querem me desanimar.

-  Nada disso, pai, em tudo é preciso ter bom senso.

-  Quer dizer que você não vai me dar o dinheiro?

-  Não vou. Vamos procurar um emprego aqui mesmo.

-  Se ao menos eu tivesse dinheiro para me ins­crever em uma agência...

-  No ano passado você se inscreveu, pagou a taxa apenas para descobrir que já passou da idade em que as fábricas aceitam os operários.

-  Do jeito que você fala não vou arranjar em­prego nunca.

-  Se você fosse mais modesto e pegasse o que aparece estaria 
 trabalhando. Mas não quer rebaixar o seu nível salarial na carteira.

- Isso eu não faço mesmo. Sou um operário es­pecializado. Trabalhei mais de vinte anos. Não posso agora aceitar qualquer coisa para não morrer de fome.

Jacira suspirou desanimada e respondeu:

-  Está bem, pai. Faça como quiser.

-  Não adianta falar com ele - comentou Geni irri­tada -, é teimoso feito uma mula. Bem que ele poderia ter aceitado o lugar de vigia na oficina do Valdemar.

Jacira afastou-se para não ouvir aquela discussão de sempre. Foi à cozinha, e, mesmo sem fome, apa­nhou o prato feito que estava no forno, olhou-o e co­locou-o novamente no mesmo lugar.

Estava cansada. Resignada, apressou-se a ar­rumar a cozinha, queria ir para o quarto dormir.


Quando terminou tudo e estava subindo as es­cadas para o quarto, Geni gritou da sala:

- Não se esqueça de acordar mais cedo amanhã para buscar pão. Não temos nem pão velho para o café.

Sem responder, Jacira entrou no quarto e fechou a porta. Estendeu-se na cama vestida sentindo pena de si mesma e da vida sem graça que levava.

Ela sentia que estava no limite de suas forças e precisava esforçar-se para não reagir e gritar toda sua raiva. Por que ela precisava pensar em tudo dentro de casa? Por que o pai, que ficava o dia inteiro sem fazer nada, não podia levantar cedo e ir buscar pão? Por que sua mãe, que não tinha nenhuma doença, não lavava a louça do jantar e deixava tudo para ela?

Revoltada, Jacira revirou-se na cama e desejou sumir, ir para longe, como fizeram os irmãos. Apesar desse desejo acariciado havia tanto tempo, no fundo ela sabia que nunca teria coragem de abandonar os pais. O que seria deles se ela fosse embora? Morre­riam de fome, com certeza.

Não. Ela não tinha saída. Teria de continuar su­portando essa desgraça e encontrando forças para não perder a cabeça.

Lágrimas desceram pelo seu rosto e ela sequer as enxugou. Deixou-as correr livremente como a se lavar de todas aquelas coisas ruins das quais não conseguia livrar-se.

Até que, cansada, virou de lado e adormeceu. No dia seguinte, acordou cedo e sentiu o estômago vazio. Lembrou-se de que não havia comido nada desde o almoço, no dia anterior.

Levantou-se admirada por perceber que havia dormido vestida, sem escovar os dentes. Sentiu um gosto amargo na boca, foi imediatamente escovar os dentes e tomar um banho.

Vestiu o vestido que havia apertado e ensaiou mudar o penteado. Mas não gostou e acabou deixando os cabelos como sempre. Eram seis horas e ela tinha tempo para ir comprar pão, conforme Geni queria.

Apanhou a carteira, foi à cozinha, colocou água no fogo para ferver e saiu. Ao chegar à padaria, havia uma pequena fila para comprar pão.

O cheiro gostoso de café e do pão quente a fez sentir mais fome. No balcão havia muitas guloseimas apetitosas, mas Jacira desviou o olhar. Não queria gastar, preferia economizar para melhorar seu guarda-roupa.

Enquanto esperava na fila, notou que um rapaz magro, alto, olhava-a admirado. Jacira passou a mão pelo rosto. Teria passado muito pó-de-arroz?

Comprou pão e foi saindo. O rapaz estava na porta e quando ela passou, abordou-a:

-  Como vai, Jacira? Ela respondeu:

-  Bem - e foi saindo. Ele continuou:

-  Não se lembra de mim? Ela fixou-o e reconheceu:

-  Você não é o Arlindo?


- Isso mesmo. Pensei que não houvesse me reco­nhecido. Você está diferente... para melhor.
Jacira não entendeu:

-  Como assim?

-  Mais elegante, mais bonita... O que você fez?

Então ela notou que ele a olhava com certo inte­resse. Seu coração disparou, suas pernas bambearam. Controlou-se, porém, e respondeu:

- Nada. Sou a mesma de sempre.

-   Não é não.

-   Eu tenho que ir.

Ela andou, mas ele a acompanhou:

-   Vou para o mesmo lado que você.

-   Estou com pressa, tenho que ir trabalhar.

Ela apressou o passo, e ele continuou caminhando ao seu lado. Ao chegar em casa ela viu Geni na janela, olhando admirada.

-   Você vai todos os dias comprar pão a esta hora?

-   Não. Vou entrar. Até outro dia.

Apressada, Jacira abriu a porta e entrou. Geni a esperava irritada:

- Não se envergonha de sair com um vestido tão curto e apertado? 

Está fazendo isso para chamar atenção dos homens?

Jacira enrubesceu de raiva, mas procurou não res­ponder. Sua mãe havia coado o café; ela sentou-se, apanhou um pão, passou margarina, serviu-se de café, adoçou e começou a comer.

- Você não ouviu o que eu disse? Antes de sair vá trocar o vestido.
Jacira fulminou a mãe com o olhar e respondeu:

-   Não vou trocar. Se quer saber, de hoje em diante vou me vestir assim todos os dias. É bom se acostumar.

-   Isso não pode ser verdade. Você está querendo chamar a atenção dos homens.

-   Eu não quero nada disso. Todas as moças que eu conheço vestem-se assim e eu não sou diferente. Nunca mais vou usar aqueles vestidos sem graça, largos e escuros.

Aristides entrou na cozinha e Geni gritou:

-   Está vendo, Tide, como essa menina está nos afrontando? Quer sair com esse vestido apertado, curto, chamando a atenção dos homens. Ela vinha da padaria acompanhada... pudera, vestindo-se desse jeito!

-   Era o Arlindo, filho da d. Elvira, sua amiga. Não estava me acompanhando, ia para o mesmo lado que eu, cumprimentou-me e acompanhou-me.

- Antes isso não acontecia...

Aristides, que odiava discussões pela manhã, tentou contemporizar:
- Geni, ela já explicou, era o Arlindo. E você, Ja­cira, precisa ter paciência com sua mãe. Ela fala para seu bem.

Jacira ignorou tanto um quanto outro, levantou-se e foi para o quarto apanhar a bolsa. De passagem, olhou-se no espelho e lembrou:


Você está diferente... para melhor. Mais ele­gante, mais bonita...".
Sorriu. Era a primeira vez que um homem a elo­giava. Embora fosse o Arlindo, que não tinha nada de bonito, era um homem e a admirara como mulher.

Satisfeita, apanhou a bolsa e saiu. Passou rapida­mente pela sala e ganhou a rua.

Uma vez dentro do ônibus foi pensando que quando recebesse o salário, separaria algum dinheiro para comprar pano e fazer um vestido e talvez pudesse também ver um par de sapatos. Ela mesma costuraria, pediria para Margarida cortar e ela faria o resto.

Quando chegou à oficina ainda era cedo e assim que encontrou Margarida, depois dos cumprimentos, disse:

-  Estou pensando em comprar um tecido para fazer um vestido. Você me ajudaria? Eu sei costurar, mas tenho medo de cortar.

-  Claro. Em minha casa ainda tenho alguns cortes de tecido, se você gostar posso vender bem barato e ainda ajudar você a fazer.

- Será ótimo.

- Vá no domingo a minha casa e vou lhe mostrar o que tenho. Se gostar, tiro as suas medidas e já co­meçamos a trabalhar.

- Onde você mora?

- Na Penha. Não é difícil de ir. Mas é preciso ir cedo para dar tempo de fazer tudo.

-  A que horas?

-  Lá pelas nove da manhã. Você almoça comigo.

- Não quero dar trabalho.

-  Não é trabalho. É bom ter uma amiga para con­versar.

-  Eu posso levar alguma coisa.

-  Não é preciso. Comida simples, mas não falta nada.

-  Obrigada pelo convite. Serei pontual.

O sinal tocou e imediatamente elas entraram para trabalhar. Jacira estava contente. Finalmente tinha uma amiga que se interessava pelo seu bem-estar.

No horário do almoço, ficaram juntas conversando com prazer.
-  Se eu soubesse fazer o que você sabe, não es­taria trabalhando nessa oficina. Estaria costurando para fora.

-  Eu tentei, mas não tive sorte.

-  Não entendo por quê. Há muitas mulheres que procuram uma boa costureira. Pelo que vi, você co­nhece bem a profissão.
-  Disso não tenho medo. Sou boa mesmo. Mas eu não sei controlar o dinheiro. Sempre gasto mais do que posso e compro mais do que preciso.

Se eu fizesse isso, eu e meus pais passaríamos fome. Você não sabe como controlo cada centavo que ganho. Se eu fosse dar todo dinheiro que   -  meu pai quer, ou comprar tudo que minha mãe pede, ficaria sem nada para comprar comida.

- Eu a admiro. Não sei como consegue fazer isso. Quando meu filho pede alguma coisa eu compro mesmo que fique devendo. Não sei dizer não.

Pouco tempo depois, o sinal tocou e elas recome­çaram a trabalhar.
No domingo, Jacira se levantou cedo, comprou pão, fez café e o estava tomando quando Geni apa­receu na cozinha:

- Hoje é domingo. Você não vai trabalhar, por que se levantou tão cedo?

- Preciso sair.

- Sair? Para onde? Esqueceu que o cesto de roupas está cheio para passar e durante a semana você diz que está cansada, que não tem tempo?

-  Hoje não farei nada.

-  Posso saber aonde você vai?

-  Passar o dia na casa de uma amiga.

-  Amiga? Você nunca teve nenhuma amiga.

-  Agora tenho. Ela me convidou para passar o dia em sua casa. 

Preciso estar lá antes das nove.

Geni meneou a cabeça negativamente e res­pondeu:

-  Por que tão cedo?

-  Porque temos muitas coisas para fazer.

- Hum! Já sei. Ela está querendo explorar você, que é bem capaz de ir lá fazer serviço para ela em vez de cumprir suas obrigações em casa.

Jacira não respondeu. Tentou segurar a raiva. Teve vontade de gritar que era ela quem ia receber a ajuda da amiga, mas pensou melhor e achou que seria bom não dizer nada e provocar a curiosidade dela que sempre queria saber tudo, até seus pensamentos.

Por esse motivo, fez um ar de mistério e disse:

- Não é nada disso. Nosso assunto é outro, muito melhor. Agora vou me arrumar, preciso ir.

-   Não vai dizer o que vão fazer lá?

-   Não.

-   Vai ver que se trata de alguma coisa errada...

-   Pense o que quiser. Já vou indo.

- Eu preciso que você me passe um vestido. Faz mais de uma semana que ele está no cesto e você ainda não o passou.

-   Não tenho tempo. A senhora pode passá-lo e até adiantar um pouco as roupas mais urgentes.

Enquanto Geni resmungava protestando, Jacira foi ao quarto, vestiu um dos vestidos que havia ajus­tado, apanhou a bolsa e saiu.

Ao fechar a porta ainda ouviu os protestos de Geni e sorriu contente por estar fazendo alguma coisa diferente do habitual e que lhe estava dando prazer.


Queria chegar logo à casa de Margarida, tomou um ônibus, que não estava cheio, sentou-se ao lado da janela e ficou olhando para a rua, observando os lugares pelos quais o veículo passava.


Desceu no ponto final e caminhou conforme Mar­garida havia indicado, procurando a rua. Uma feira livre chamou sua atenção. 

Ela foi até lá e perguntou a uma feirante onde ficava a rua que procurava. Ela explicou que ficava depois da última barraca, do lado direito.

Jacira foi caminhando vagarosamente até lá, ob­servando as mercadorias e as chamadas dos feirantes oferecendo seus produtos.

Havia uma oferta de uvas, mas o dinheiro não dava; ela preferiu comprar um pacote de balas para Marinho.

Chegou pontualmente à casa da amiga e foi rece­bida com alegria. Era uma casa térrea, com pequeno jardim na frente e uma varanda onde ficava a porta de entrada.

A casa era pequena, dois quartos, sala, cozinha, banheiro, mas tudo muito limpo e arrumado. Havia vasos com flores sobre a mesa da sala e toalhas de croché sobre os móveis.

Jacira sorriu vendo a festa que Marinho fez com as balas. Apesar da pouca idade ele era bem-edu­cado e antes de colocar uma bala na boca, ofereceu para as duas.

- Como ele é educado! - comentou Jacira. Margarida sorriu:

- Faço questão que ele aprenda a dividir o que tem com os amigos. 

Mas venha, Jacira, vamos ao meu ateliê.

Jacira acompanhou-a ao quintal onde havia um quarto com duas máquinas de costura, um manequim, uma cômoda com gavetas, uma mesa grande e al­gumas cadeiras.

- Que beleza! - exclamou Jacira. - Você tem um salão de costura montado.

- Tenho. Veja, tenho até máquina para forrar botões.

Abriu uma das gavetas da cômoda e continuou:

-   Aqui tenho os moldes de todos os manequins. Nesta outra, tesouras, carretilhas, fitas métricas, alfi­netes, tudo. Nesta última, alguns cortes de tecido que não vendi. Vou confessar que, apesar de tudo, não tive coragem para me desfazer de todas estas coisas.

Houve um tempo em que alimentei a esperança de voltar a trabalhar por conta própria.

-   Pois eu acho que você deveria mesmo fazer isso.

-   Tenho medo de me meter novamente em con­fusão. Custei para pagar tudo quanto fiquei devendo. Mas vamos olhar os tecidos. Se você gostar, pode­remos começar agora e no fim da tarde seu vestido estará pronto.

-   Não sei se poderei pagar. Eu pretendia comprar um tecido bem barato.

-   Veja esses cortes. Não são lindos?

Jacira olhou e ficou encantada. Cada um era mais bonito do que o outro.

-   Eu gostaria muito, mas esses eu penso que são caros.

-   Qual nada. Eu os tenho há algum tempo. Com­prei-os no atacado, ao preço que as lojas compram para revender. Vai sair o preço que você pagaria por um tecido de má qualidade em qualquer loja.


Os olhos de Jacira brilhavam cheios de interesse.


-   Quanto?


-   Vou fazer para você o preço que eu paguei. Está marcado na etiqueta. Veja.


Jacira olhou e perguntou:


-   Só isso?


-   E você pode me pagar em duas ou três vezes, quando puder. 
Estou fazendo isso porque quero vê-la bonita e feliz.


-   Nesse caso vou aceitar.


Ela escolheu um, depois Margarida colocou alguns figurinos para escolherem o modelo. Por fim, tirou as medidas e começou a trabalhar.


Jacira olhava, seus olhos brilhavam como os de uma criança que ganha um brinquedo há tempos dese­jado. Não queria perder nada do que Margarida fazia.


Ela sentia que finalmente encontrara uma amiga verdadeira e que essa amizade se firmava a cada ins­tante e seria para toda a vida.


 

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